Exames auditivos e de equilíbrio – Núcleo Auditivo

Labirintite ou outra alteração vestibular? Entenda a importância do diagnóstico correto

Labirintite ou outra alteração vestibular? Entenda a importância do diagnóstico correto

Você acordou com a sensação de que o quarto estava girando. Ou então sente uma tontura constante que vai e volta há meses. Talvez tenha contado para alguém e ouvido, quase que automaticamente: “ah, deve ser labirintite.”

Esse é um dos diagnósticos mais populares do Brasil, e também um dos mais mal utilizados. “Labirintite” virou um termo para qualquer coisa que envolva tontura, vertigem ou desequilíbrio. O problema é que, quando tudo é labirintite, nada é investigado com profundidade.

E sem investigação correta, o tratamento não funciona.

Este artigo explica o que é labirintite, quais outras condições vestibuares são confundidas com ela, por que isso importa para quem está sofrendo com esses sintomas, e como funciona a investigação especializada.

O que é labirintite de verdade

O labirinto é uma estrutura do ouvido interno responsável por duas funções: a audição e o equilíbrio. Quando essa estrutura inflama, o quadro é chamado de labirintite.

A inflamação pode ser causada por vírus, bactérias ou, em casos mais raros, reações autoimunes. Os sintomas costumam aparecer de forma intensa e repentina: vertigem forte, náusea, vômito e, em alguns casos, perda auditiva e zumbido. O quadro agudo costuma durar dias e tende a melhorar com o tempo e o tratamento adequado.

Isso é muito diferente de uma tontura que aparece há seis meses toda vez que você deita e vira de lado.

Ou de um desequilíbrio leve que piora em ambientes com muito movimento visual.

Ou de uma vertigem que dura segundos e some sozinha.

Cada um desses perfis tem uma causa específica e um nome clínico próprio. Tratá-los como labirintite é, na maioria das vezes, tratar o rótulo errado.

As alterações vestibulares mais comuns que não são labirintite

Vertigem Posicional Paroxística Benigna (VPPB)

É a causa mais comum de vertigem no mundo. Acontece quando pequenos cristais de carbonato de cálcio presentes no ouvido interno se desprendem e entram nos canais semicirculares, gerando um estímulo falso de movimento.

O sintoma característico é uma vertigem intensa, que dura segundos, desencadeada por mudanças de posição da cabeça: deitar, levantar, virar na cama, olhar para cima ou se abaixar. Fora dessas situações, a pessoa pode se sentir bem.

A VPPB tem tratamento altamente eficaz por meio de manobras de reposicionamento realizadas pelo especialista. Não precisa de medicação prolongada. Não precisa de “repouso por semanas”. Com o diagnóstico correto, a resolução costuma ser rápida.

Quando tratada como labirintite genérica, a pessoa fica meses tomando medicamentos que não resolvem o problema.

Neurite vestibular

Aqui sim há uma inflamação, mas ela atinge o nervo vestibular e não o labirinto inteiro. Não costuma causar perda auditiva, o que já a diferencia da labirintite clássica. O quadro agudo inclui vertigem persistente por dias, com melhora gradual conforme o sistema nervoso central se adapta.

O tratamento na fase aguda foca no alívio dos sintomas. Depois, a reabilitação vestibular é fundamental para acelerar a compensação central e reduzir o risco de sintomas residuais.

Doença de Ménière

É uma condição do ouvido interno que causa crises recorrentes com um perfil muito específico: vertigem intensa que dura entre 20 minutos e algumas horas, acompanhada de zumbido, sensação de pressão no ouvido e flutuação da audição. As crises vêm e passam, e entre elas a pessoa pode ficar bem.

O diagnóstico da Doença de Ménière exige critérios clínicos precisos e acompanhamento de longo prazo. Confundi-la com labirintite comum pode atrasar intervenções importantes para preservar a audição.

Migrânea vestibular

Menos conhecida, mas bastante comum. A migrânea (enxaqueca) pode se manifestar com sintomas vestibulares como vertigem, desequilíbrio e intolerância ao movimento, mesmo sem dor de cabeça. Quem tem histórico de enxaqueca e sente tontura sem uma causa clara no ouvido merece atenção para essa possibilidade.

Hipofunção vestibular unilateral ou bilateral

Acontece quando um ou ambos os labirintos perdem parte da sua função. O resultado é um desequilíbrio crônico, piora em ambientes escuros ou com muito estímulo visual, e dificuldade para estabilizar o olhar durante o movimento. Pode decorrer de doenças anteriores, uso de certos medicamentos ototóxicos ou envelhecimento. A reabilitação vestibular é o principal recurso terapêutico.

Distúrbio perceptual persistente postural (DPPP)

Um diagnóstico relativamente recente que explica muitos casos de tontura crônica sem causa orgânica evidente. O sistema vestibular pode ter sofrido um evento agudo no passado, mas o sistema nervoso central mantém um estado de hipersensibilidade que perpetua os sintomas. A tontura é constante ou quase constante, piora com estímulos visuais e situações de estresse, e os exames convencionais costumam ser normais.

Por que todo mundo chama de labirintite

Há razões históricas e culturais para isso. Durante décadas, qualquer tontura ou vertigem foi agrupada sob o termo “labirintite” tanto por pacientes quanto por profissionais de saúde que não eram especialistas no sistema vestibular.

O resultado é que muitas pessoas circulam por anos com um diagnóstico incorreto, tomam medicamentos que aliviam os sintomas momentaneamente mas não tratam a causa, e nunca recebem o encaminhamento para a investigação adequada.

Isso tem um custo real. Além do sofrimento prolongado, a tontura crônica sem diagnóstico correto está associada a restrição de atividades, isolamento social, ansiedade e risco aumentado de quedas, especialmente em idosos.

O que diferencia uma condição da outra na avaliação

Para um especialista, as pistas estão nos detalhes do histórico e nos achados do exame. Algumas perguntas que fazem toda a diferença:

 

Característica O que revela
A vertigem dura segundos ou horas? Segundos sugerem VPPB. Horas sugerem Ménière ou migrânea vestibular. Dias sugerem neurite ou labirintite.
É desencadeada por posição da cabeça? Fortemente sugestivo de VPPB.
Há perda auditiva associada? Presente em labirintite e Ménière; ausente em neurite vestibular e VPPB.
Há zumbido ou sensação de pressão no ouvido? Característico de Ménière; pode estar presente na labirintite.
Os sintomas são constantes ou em crises? Constante sugere hipofunção ou PPPD. Em crises sugere Ménière ou migrânea vestibular.
Piora em ambientes com muito movimento visual? Sugere hipofunção vestibular ou PPPD.
Há histórico de enxaqueca? Aumenta a probabilidade de migrânea vestibular.
Há histórico de otites frequentes ou uso de aminoglicosídeos? Pode indicar hipofunção vestibular adquirida.

Esses detalhes, associados ao exame otoneurológico e às avaliações funcionais do sistema vestibular, são o que permite chegar a um diagnóstico confiável.

Como funciona o exame otoneurológico

O exame otoneurológico é a avaliação especializada do sistema auditivo e vestibular. Ele não é um único teste, mas uma bateria de avaliações que investigam como o labirinto, o nervo vestibular e o sistema nervoso central estão funcionando.

Entre as avaliações que fazem parte desta investigação:

  • Vectoeletronistagmografia (VEng) ou Videonistagmografia (VNG): registra os movimentos dos olhos em resposta a estímulos do sistema vestibular. É fundamental para identificar nistagmo (movimento involuntário dos olhos) e localizar a origem do problema.
  • Posturografia: avalia o controle do equilíbrio em diferentes condições, investigando a contribuição do sistema vestibular, visual e proprioceptivo.
  • Potenciais evocados miogênicos vestibulares (VEMPs): avaliam partes específicas do labirinto que não são acessadas pelos exames convencionais.
  • Prova calórica: estimula cada labirinto separadamente para comparar a resposta dos dois lados e identificar hipofunções unilaterais.
  • Manobra de Dix-Hallpike: teste específico para o diagnóstico de VPPB, que provoca a vertigem de forma controlada para confirmar a hipótese e identificar qual canal está afetado.

A avaliação é conduzida por fonoaudiólogo especializado em otoneurologia, frequentemente em parceria com otorrinolaringologista ou neurologista dependendo dos resultados identificados.

Quando investigar

Nem toda tontura precisa de investigação imediata. Tontura ocasional, leve e sem outros sintomas pode ter causas simples como desidratação, hipoglicemia ou mudança brusca de posição.

Mas existem situações em que a investigação especializada é importante:

  • Vertigem intensa que aparece de repente e dura mais do que algumas horas
  • Tontura que se repete com frequência sem uma causa clara
  • Desequilíbrio persistente que interfere nas atividades do dia a dia
  • Tontura associada a perda auditiva, zumbido ou sensação de pressão no ouvido
  • Vertigem desencadeada por posição da cabeça que não melhora
  • Histórico de uso de medicamentos ototóxicos (gentamicina, cisplatina e outros)
  • Tontura que voltou após um episódio agudo já tratado
  • Sintomas que pioraram mesmo com medicação
  • Queda ou risco de queda por instabilidade

Você se identifica com algum desses cenários?

  • Sinto tontura ou vertigem com frequência há mais de um mês
  • A tontura aparece quando deito, levanto ou viro de lado na cama
  • Já fui tratado para “labirintite” mas os sintomas voltaram ou nunca melhoraram completamente
  • Tenho dificuldade de equilíbrio em ambientes com muito movimento ou pouca luz
  • Sinto zumbido ou pressão no ouvido junto com a tontura
  • Minha audição parece ter piorado
  • A tontura piora quando estou estressado ou ansioso
  • Tenho medo de cair por causa do desequilíbrio

Se você marcou dois ou mais itens, uma avaliação otoneurológica pode trazer respostas que você ainda não tem.

O que acontece quando o diagnóstico é correto

A diferença entre o diagnóstico correto e o incorreto não é apenas acadêmica. Ela determina se o tratamento vai funcionar ou não.

Quem tem VPPB e recebe manobra de reposicionamento adequada costuma resolver o quadro em uma ou duas sessões. Quem toma medicamento para “labirintite” pelos mesmos sintomas pode passar meses sem melhora.

Quem tem hipofunção vestibular e inicia reabilitação vestibular adequada recupera estabilidade e confiança no movimento. Quem não é diagnosticado continua evitando situações que provocam desconforto, o que agrava ainda mais a hipofunção.

Quem tem Doença de Ménière e recebe acompanhamento especializado pode ter crises controladas e monitorar a audição. Quem trata como labirintite comum não recebe esse acompanhamento.

O diagnóstico correto muda o prognóstico.

A relação entre tontura e saúde mental

Um ponto que merece atenção e frequentemente é deixado de lado: tontura crônica sem diagnóstico tem impacto psicológico significativo.

A incerteza sobre o que está causando os sintomas gera ansiedade. A ansiedade, por sua vez, pode amplificar a percepção da tontura. Isso cria um ciclo em que os sintomas físicos e emocionais se retroalimentam.

Isso não significa que “é psicológico”. Significa que os dois aspectos coexistem e precisam ser tratados juntos quando estão presentes. Alguns casos de DPPP, por exemplo, se desenvolvem exatamente a partir desse ciclo, após um evento vestibular agudo que disparou uma resposta ansiosa que não se resolveu sozinha.

Identificar isso faz parte de uma avaliação completa.

Perguntas frequentes sobre labirintite

Labirintite tem cura?

A labirintite aguda em geral resolve com o tratamento adequado, embora alguns pacientes possam ter sequelas de hipofunção vestibular que requerem reabilitação. O que muitas pessoas chamam de “labirintite crônica” frequentemente não é labirintite, mas outras condições vestibulares que precisam de diagnóstico próprio e tratamento específico.

Remédio para labirintite resolve tontura?

Medicamentos como os supressores vestibulares aliviam os sintomas na fase aguda, mas não tratam a causa e não devem ser usados por tempo prolongado sem indicação. Em condições como VPPB, por exemplo, a medicação não resolve o problema de base. O uso crônico de supressores vestibulares pode, inclusive, dificultar a compensação central.

É possível ter mais de uma causa de tontura ao mesmo tempo?

Sim. Não é incomum encontrar, por exemplo, um paciente com VPPB que também tem migrânea vestibular, ou hipofunção vestibular que desenvolveu DPPP associado. A avaliação precisa investigar cada componente.

O exame otoneurológico dói?

Não. Os testes são não invasivos. Alguns podem provocar a tontura temporariamente de forma controlada durante o exame, o que é esperado e faz parte da avaliação. O desconforto é breve e passa rapidamente.

Qual médico trata labirintite e tontura?

O otorrinolaringologista é o médico especialista no sistema auditivo e vestibular. O fonoaudiólogo especializado em otoneurologia realiza a avaliação funcional do sistema vestibular e conduz a reabilitação vestibular. Dependendo da causa identificada, o neurologista também pode ser envolvido no acompanhamento.

Reabilitação vestibular funciona?

Sim, com boas evidências científicas. A reabilitação vestibular é um conjunto de exercícios específicos que estimulam o sistema nervoso central a compensar déficits vestibulares e recalibrar o equilíbrio. Os resultados dependem da causa, da duração dos sintomas e do comprometimento do paciente com o programa terapêutico.

Tontura pode ser sinal de algo grave?

Na maioria das vezes, tontura tem causa benigna. Mas existem situações em que pode indicar algo que precisa de avaliação urgente: vertigem intensa de início súbito com dor de cabeça forte, dificuldade para falar ou andar, perda visual ou fraqueza em membros. Nesses casos, a busca por atendimento médico deve ser imediata.

 

Avalie seu sistema vestibular no Núcleo Auditivo

O Núcleo Auditivo realiza o exame otoneurológico completo, com equipe especializada formada pela USP e pela Santa Casa de São Paulo.

Se você convive com tontura, vertigem ou desequilíbrio e ainda não tem um diagnóstico claro, essa avaliação pode ser o passo que falta, agende sua consulta

📍 Guarulhos — Av. Emílio Ribas, 842, Gopouva

📍 Tatuapé — R. Vilela, 652, sala 1101, São Paulo

👉 Agende pelo WhatsApp — Guarulhos

👉 Agende pelo WhatsApp — Tatuapé

Compartilhe: