Exames auditivos e de equilíbrio – Núcleo Auditivo

Quando a criança troca sons, se distrai fácil e demora para responder: o que pode estar acontecendo?

Quando a criança troca sons, se distrai fácil e demora para responder: o que pode estar acontecendo?

Você já chamou o nome do seu filho três vezes  e ele simplesmente não respondeu?

Ou notou que ele troca sons na fala, diz “tato” em vez de “gato”, “faca” em vez de “vaca”?

Talvez a professora tenha mandado um bilhete: “ele se distrai muito, não acompanha as instruções, parece que está no mundo da lua.”

E você, lá em casa, fica se perguntando:

Será que é falta de atenção? Será que é preguiça? Será que é algo mais sério?

Essa dúvida é muito mais comum do que parece  e muito mais importante do que costuma ser tratada.

O que vamos explorar neste artigo é exatamente isso: o que pode estar por trás desses comportamentos, por que eles aparecem juntos com tanta frequência, e quando faz sentido investigar com mais cuidado.

O que significa “trocar sons” na fala de uma criança?

Antes de qualquer coisa, é importante entender que trocar sons é esperado em determinadas fases do desenvolvimento infantil.

Uma criança de 2 anos dizendo “tato” em vez de “gato” faz parte do processo natural de aprendizado da linguagem. O sistema fonológico  responsável pela organização dos sons da língua está em formação.

O problema começa quando essas trocas persistem além da idade esperada ou aparecem em combinação com outros sinais.

As trocas de sons mais comuns e o que revelam

Na prática clínica fonoaudiológica, as trocas de sons mais frequentes seguem padrões. Não acontecem ao acaso  elas refletem como o cérebro da criança está organizando os sons da língua.

As mais comuns são:

  • Trocas por ponto de articulação: sons produzidos em lugares parecidos na boca são confundidos. “Peixe” vira “beixe”, “tato” vira “dato”
  • Trocas por vozeamento: sons surdos e sonoros se confundem. “Faca” vira “vaca”, “pato” vira “bato”
  • Simplificação de sílabas complexas: “bloco” vira “boco”, “prato” vira “pato”
  • Omissão de sons: “porta” vira “pota”, “flor” vira “for”

Quando essas trocas acontecem em uma criança de 6, 7 ou 8 anos  já em fase de alfabetização  elas merecem atenção. Não só pela fala, mas porque a mesma dificuldade que aparece na fala tende a aparecer na escrita.

A criança escreve como fala. E fala como processa o som.

Por que a distração pode ter origem na audição?

Esse é um ponto que costuma surpreender os pais.

Quando pensamos em uma criança distraída, nosso pensamento vai imediatamente para TDAH, para excesso de tela, para questões emocionais. E essas possibilidades precisam sim ser investigadas.

Mas existe uma causa que frequentemente passa despercebida: o sistema auditivo sobrecarregado.

Aqui está o raciocínio:

Imagine que você está tentando ouvir uma conversa numa festa barulhenta. Você capta os sons, mas precisa se concentrar muito mais do que o normal para entender o que está sendo dito. É cansativo. Em algum momento, você desiste.

Para algumas crianças, todo ambiente com ruído funciona assim.

O cérebro está trabalhando em dobro só para tentar organizar o que os ouvidos captam. E quando o esforço é muito grande, a criança “desliga” não por preguiça, mas por sobrecarga.

Esse fenômeno tem nome. Ele se chama fadiga auditiva e é um dos sinais clássicos de alteração no processamento auditivo central.

O que acontece no cérebro quando há dificuldade de processamento

O sistema auditivo central começa nos ouvidos, mas vai muito além deles.

Depois de captar o som, o sinal percorre o nervo auditivo, passa pelo tronco cerebral e chega ao córtex auditivo onde o som é finalmente interpretado como linguagem, música, significado.

Quando há uma alteração em algum ponto desse caminho, a criança pode ouvir normalmente no audiograma  ou seja, detectar os sons  mas ter dificuldade para:

  • Distinguir sons parecidos (“b” e “p”, “f” e “v”)
  • Entender fala em ambientes com ruído de fundo
  • Acompanhar instruções longas
  • Memorizar sequências de informação auditiva
  • Manter a atenção em conteúdo oral por mais tempo

Isso explica por que tantas crianças com alteração no processamento auditivo parecem distraídas: o esforço que elas precisam fazer para entender é muito maior do que o das outras crianças.

Por que ela demora para responder?

A demora para responder é outro sinal que costuma gerar muita preocupação e muita interpretação equivocada.

“Parece que ela não escuta.”
“Chamo três vezes para conseguir uma resposta.”
“Parece que está no mundo da lua.”

Existe uma diferença importante entre três situações distintas:

1. A criança que não ouviu

Pode haver uma perda auditiva real — uma diminuição na capacidade de detectar sons. Nesse caso, a criança literalmente não recebeu o estímulo. Isso é identificado pela audiometria.

2. A criança que ouviu, mas não processou

O som chegou, mas o cérebro demorou ou falhou em interpretá-lo. Ela precisa de mais tempo para “traduzir” o que foi dito. Por isso a demora. Por isso o “hã?” frequente. Por isso ela responde melhor quando você vai até ela, reduz o ruído de fundo e faz contato visual.

3. A criança que processou, mas não priorizou

Aqui entram questões de atenção seletiva e funcionamento executivo  que podem estar associadas ao TDAH ou a outras condições.

O problema é que essas três situações têm aparência parecida para quem observa de fora. A criança “não responde” nos três casos. Mas as causas e os caminhos são completamente diferentes.

É por isso que a avaliação precisa ser especializada — e não pode se basear só na observação comportamental.

Quando esses três sinais aparecem juntos: o que isso pode indicar?

Trocar sons + se distrair com facilidade + demorar para responder.

Quando esses três sinais aparecem no mesmo perfil, existe uma sobreposição que merece atenção especial. Na literatura fonoaudiológica, esse conjunto é frequentemente associado a alterações no processamento auditivo central  mais especificamente nas habilidades de:

  • Discriminação auditiva: capacidade de distinguir sons parecidos
  • Figura-fundo auditivo: capacidade de focar em um som específico mesmo com ruído ao fundo
  • Memória auditiva sequencial: capacidade de reter e organizar informações auditivas em ordem
  • Fechamento auditivo: capacidade de completar informações auditivas mesmo quando estão incompletas

 

Essas habilidades são a base não só da comunicação, mas de toda a aprendizagem escolar.

A conexão com a escola que poucos percebem

Na sala de aula, a criança com essas dificuldades enfrenta um ambiente especialmente desafiador:

  • A professora fala de frente para a lousa (sem contato visual)
  • Outros alunos fazem barulho ao fundo
  • As instruções são dadas verbalmente e de uma vez
  • O ritmo não espera

Para uma criança com dificuldade de processamento auditivo, a sala de aula pode ser um ambiente auditivamente hostil mesmo que a audição periférica seja perfeita.

E o resultado é o que os pais ouvem nas reuniões:
“Seu filho não presta atenção, não segue instruções, é lento para copiar.”

A diferença entre TPAC, TDAH e perda auditiva: como distinguir?

Essa é uma das perguntas mais importantes — e mais frequentemente confundidas.

Característica Perda auditiva TPAC TDAH
O que está alterado Detecção do som Interpretação do som pelo cérebro Regulação da atenção e impulsos
Como parece Não escuta ou pede para repetir Escuta, mas não entende bem Escuta, mas não se concentra
Responde melhor quando Som é mais alto Ambiente silencioso, sem distração auditiva Tarefa é motivadora ou há estrutura
Exame que detecta Audiometria tonal Avaliação do processamento auditivo central Avaliação neuropsicológica
Quem avalia Fonoaudiólogo / Otorrinolaringologista Fonoaudiólogo especializado Neuropediatra / Neuropsicólogo

Ponto crítico: essas condições podem coexistir no mesmo paciente. Uma criança pode ter TDAH e alteração no processamento auditivo. O TPAC pode mimetizar o TDAH (gerar comportamentos parecidos). E uma perda auditiva não tratada pode agravar tanto o TDAH quanto o processamento.

Por isso a avaliação integrada é tão importante: descartar uma coisa não elimina a outra.

Sinais de alerta por faixa etária

Uma das ferramentas mais práticas para os pais é entender o que é esperado em cada fase e o que deixou de ser esperado.

Dos 2 aos 4 anos

✅ Normal: trocas de sons frequentes, fala “enrolada”, frases incompletas
⚠️ Sinal de atenção: não responde ao próprio nome, não segue comandos simples, vocabulário muito limitado para a idade

Dos 4 aos 6 anos

✅ Normal: algumas trocas de sons ainda persistem, melhora gradual da clareza
⚠️ Sinal de atenção: troca de sons ainda muito frequente, dificuldade para entender histórias, parece não ouvir em ambientes com barulho

Dos 6 aos 8 anos (fase de alfabetização)

✅ Normal: fala clara, começa a ler e escrever com suporte
⚠️ Sinal de atenção: troca de letras na escrita que refletem trocas de sons (“b”/”p”, “f”/”v”), dificuldade persistente com leitura, relatos da escola sobre atenção e compreensão

A partir dos 8 anos

✅ Normal: fala clara, leitura e escrita em desenvolvimento
⚠️ Sinal de atenção: qualquer persistência dos sinais anteriores, dificuldade acadêmica sem explicação clara, baixa autoestima relacionada ao desempenho escolar

O que a avaliação do processamento auditivo central investiga?

Muitos pais chegam à clínica esperando “um exame de audição”  e ficam surpresos com a profundidade da avaliação do processamento auditivo.

Ela não é só um teste de se a criança ouve ou não. Ela é uma investigação de como o cérebro da criança está lidando com sons.

A avaliação inclui, entre outras habilidades:

Discriminação auditiva
A criança consegue perceber a diferença entre “pato” e “bato”, “faca” e “vaca”? Entre sons parecidos em frequência e vozeamento?

Figura-fundo auditivo
Quando há ruído de fundo, a criança ainda consegue focar na voz principal? Ou o ruído “engole” a informação?

Memória auditiva sequencial
Após ouvir uma sequência de sons ou palavras, a criança consegue repeti-la na ordem correta? Essa habilidade é fundamental para seguir instruções com múltiplos passos.

Fechamento auditivo
Se o sinal de fala estiver incompleto ou distorcido, a criança consegue completar mentalmente o que falta? Isso é o que nos permite entender alguém mesmo quando há ruído ou quando a pessoa está falando rápido.

Ordenação temporal
O cérebro da criança consegue organizar sons em sequência correta no tempo? Essa é a base da percepção rítmica da linguagem e está diretamente relacionada com a leitura.

Processamento binaural
Como os dois ouvidos estão trabalhando juntos? A criança consegue integrar informações que chegam de lados diferentes?

Cada uma dessas habilidades corresponde a funções específicas do sistema auditivo central. E cada uma pode ser preservada ou alterada de forma independente.

É por isso que duas crianças com “dificuldade de processamento auditivo” podem ter perfis completamente diferentes e precisar de abordagens completamente diferentes.

Como é feita a avaliação na prática?

A avaliação do processamento auditivo central é realizada por fonoaudiólogo especializado e usa testes validados e padronizados para a população brasileira.

 Os testes são realizados com fones de ouvido, em uma sala com condições controladas de ruído. Os estímulos podem ser:

  • Palavras ou sílabas apresentadas com distorção ou ruído de fundo
  • Sequências de sons que a criança deve repetir ou reconhecer
  • Sons apresentados em condições de “escuta dicótica”  onde chegam estímulos diferentes nos dois ouvidos simultaneamente
  • Sons não-verbais para avaliar aspectos acústicos independentemente da linguagem

A avaliação completa costuma durar de 1h30 a 2h, dependendo da criança e da bateria de testes utilizada.

Antes da avaliação do processamento, é importante que a audição periférica (a capacidade básica de ouvir) já tenha sido investigada  por meio de audiometria e imitanciometria. Isso garante que qualquer alteração encontrada no processamento não está sendo mascarada por uma perda auditiva não diagnosticada.

Idade mínima para a avaliação: a bateria de testes é padronizada para crianças a partir de 7 anos. 

O que acontece depois do diagnóstico?

Identificar a alteração é o primeiro passo e já traz um alívio enorme para muitos pais. Afinal, finalmente existe uma explicação para o que estava acontecendo.

A partir do diagnóstico, o caminho mais indicado na maioria dos casos envolve o treino auditivo  um processo terapêutico estruturado que estimula o sistema auditivo central a desenvolver as habilidades que estão abaixo do esperado.

O que é o treino auditivo?

O treino auditivo é um conjunto de atividades e exercícios específicos, conduzidos pelo fonoaudiólogo, que trabalham diretamente as habilidades auditivas alteradas.

Não é “aula de reforço”. Não é “estímulo musical genérico”.

É um processo estruturado, baseado em evidências, que usa a plasticidade cerebral  a capacidade do cérebro de se reorganizar e criar novas conexões  para fortalecer o processamento auditivo.

Quanto mais jovem a criança, maior a plasticidade. Por isso o diagnóstico precoce faz tanta diferença.

O que muda na prática?

Crianças que passam pelo processo de avaliação e treino auditivo frequentemente apresentam melhoras em:

  • Clareza e precisão na fala
  • Desempenho na leitura e escrita
  • Capacidade de seguir instruções
  • Atenção e concentração em sala de aula
  • Autoconfiança e autoestima escolar

Não porque “ficaram mais espertas” mas porque o cérebro passou a processar os sons com mais eficiência. E isso tem impacto em cascata em tudo o mais.

O que você pode observar agora mesmo em casa

Antes de agendar uma avaliação, você pode observar o comportamento do seu filho em situações específicas. Essas observações serão valiosas para a fonoaudióloga durante a consulta.

Checklist de observação para os pais:

  • Meu filho pede para repetir com frequência, mesmo sem televisão ou barulho ligado?
  • Ele responde melhor quando estou de frente para ele, com contato visual?
  • Em ambientes barulhentos (festas, restaurantes, sala de aula), ele parece “desligar”?
  • Ele troca sons na fala — e essas trocas são consistentes (sempre as mesmas)?
  • Ele tem dificuldade para seguir instruções com 2 ou 3 etapas?
  • Na escrita, ele troca as mesmas letras que troca na fala?
  • A professora sinaliza dificuldade de atenção ou compreensão oral na escola?
  • Ele cansa facilmente em atividades que exigem escuta prolongada?
  • Ele entende melhor quando o ambiente está silencioso?
  • Ele tem histórico de otites de repetição na infância?

Se você marcou 3 ou mais itens,  especialmente se a criança está em idade escolar , vale muito a pena fazer uma avaliação especializada.

Perguntas frequentes (FAQ)

Criança que troca sons na fala tem problema auditivo?

Nem sempre. A troca de sons pode ser parte normal do desenvolvimento até certa idade. Mas quando persiste além do esperado para a faixa etária, pode indicar uma alteração fonológica (na forma como o cérebro organiza os sons da língua) ou uma alteração no processamento auditivo central. Em alguns casos, pode estar associada a perdas auditivas leves ou flutuantes como as causadas por otite. Por isso a avaliação precisa investigar tanto a audição periférica quanto o processamento auditivo central.

Meu filho tem audiometria normal. Então o problema não é auditivo?

A audiometria avalia a audição periférica ou seja, se o ouvido capta os sons. Uma audiometria normal significa que o ouvido está funcionando bem. Mas não garante que o cérebro está processando esses sons corretamente. Por isso é possível ter audiometria normal e ainda assim ter alteração no processamento auditivo central. São exames diferentes, que avaliam partes diferentes do sistema auditivo.

Com que idade a criança pode fazer a avaliação do processamento auditivo?

A partir dos 7 anos de idade a avaliação pode ser realizada, antes dessa faixa etária não recomenda-se realizar por falta de maturação do sistema auditivo.

Troca de letras na escrita pode ser sinal de problema auditivo?

Sim. Quando a criança troca letras que representam sons parecidos (“b” e “p”, “f” e “v”, “d” e “t”), isso frequentemente reflete a dificuldade de discriminação auditiva. A escrita alfabética é diretamente dependente da percepção dos sons da língua. Uma criança que não discrimina bem esses sons vai ter dificuldade para representá-los na escrita.

Qual é a diferença entre TPAC e TDAH?

Embora os comportamentos pareçam desatenção, dificuldade de seguir instruções e resposta lenta, as causas são diferentes. No TDAH, o problema está na regulação da atenção e do controle dos impulsos, relacionado a funções executivas do córtex pré-frontal. No TPAC, o problema está na forma como o sistema auditivo central processa os sons. As duas condições podem coexistir. Uma criança com TDAH pode ter seu quadro agravado por uma alteração de processamento auditivo não diagnosticada e vice-versa.

É possível que meu filho “melhore sozinho”?

Algumas habilidades auditivas se desenvolvem naturalmente com a maturação do sistema nervoso. Mas outras requerem estimulação específica. Esperar sem investigar pode significar perder o período de maior plasticidade cerebral e acumular dificuldades escolares que impactam a autoestima. A avaliação não compromete a criança: ela apenas mapeia o que está acontecendo. Se tudo estiver bem, ótimo. Se houver algo para trabalhar, melhor saber agora.

O treino auditivo tem duração fixa?

Não. A duração do treino auditivo depende do perfil da criança, das habilidades alteradas identificadas na avaliação e da resposta à intervenção. Cada plano terapêutico é individualizado. O acompanhamento regular com reavaliações periódicas permite ajustar o processo conforme a criança evolui.

Uma última reflexão

É muito fácil interpretar um filho que não responde como “rebelde”.
Um filho que troca sons como “preguiçoso para falar certo”.
Um filho que se distrai como “viciado em tela”.

Essas interpretações têm um custo alto — não só no diagnóstico tardio, mas na relação entre pais e filhos, na autoestima da criança, no sofrimento de todos.

A maioria das crianças que chegam ao consultório com esse perfil não tem nenhum problema de comportamento. Elas têm um sistema auditivo que precisa de atenção.

E quando isso é identificado e trabalhado no momento certo, a transformação costuma ser surpreendente.

Avalie a audição do seu filho no Núcleo Auditivo

O Núcleo Auditivo realiza avaliações completas do processamento auditivo central, com equipe especializada formada pela USP e pela Santa Casa de São Paulo.

Atendemos em duas unidades:

📍 Guarulhos — Av. Emílio Ribas, 842, Gopouva
📍 Tatuapé — R. Vilela, 652, sala 1101, São Paulo

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