Exames auditivos e de equilíbrio – Núcleo Auditivo

Quem trabalha com muito ruído precisa fazer audiometria mesmo sem sintomas?

Quem trabalha com muito ruído precisa fazer audiometria mesmo sem sintomas?

Você trabalha em fábrica, obra, aeroporto, bar, show, oficina mecânica, serralheria, cozinha industrial? Ou passa o dia perto de máquinas, geradores, britadeiras, serras ou qualquer equipamento barulhento?

Se a resposta for sim, tem uma pergunta importante: quando foi sua última audiometria?

A maioria das pessoas que trabalham em ambientes ruidosos nunca fez esse exame. Não porque negligenciam a saúde, mas porque não sentem nada de errado. E aí está o problema: a perda auditiva causada por ruído não avisa quando está chegando.

Por que o ruído no trabalho machuca a audição

O ouvido interno tem células responsáveis por transformar o som em sinal elétrico para o cérebro. Essas células são frágeis e não se regeneram. Uma vez destruídas, não voltam.

Quando a pessoa se expõe a ruído intenso por muito tempo, essas células são sobrecarregadas. No começo, o dano é temporário: você sai de um ambiente barulhento com os ouvidos “abafados” e, após algumas horas, a audição volta ao normal. Isso é o que os especialistas chamam de deslocamento temporário de limiar. O problema é que cada episódio desses deixa as células um pouco mais vulneráveis.

Com a exposição repetida ao longo de meses e anos, o dano deixa de ser temporário. As células morrem. A perda auditiva passa a ser permanente. Esse processo tem nome: PAIR, sigla para Perda Auditiva Induzida por Ruído.

A crueldade da PAIR é que ela começa nas frequências que a maioria das pessoas nem percebe no cotidiano. As primeiras células a serem danificadas são as responsáveis pelos sons entre 3.000 e 6.000 Hz, faixas que usamos para entender consoantes em conversas e para distinguir palavras parecidas. A pessoa ouve os sons, mas começa a ter dificuldade para entender o que está sendo dito, especialmente em ambientes com ruído de fundo.

Só mais tarde, quando a perda avança para as frequências da voz humana em geral, é que a pessoa começa a notar que “está ficando surda”. Nesse ponto, o dano já é extenso.

Quem está em risco

O nível de ruído é medido em decibéis (dB). A partir de 85 dB de exposição contínua por 8 horas diárias, o risco de dano auditivo se torna relevante. A cada 5 dB que aumentam, o tempo seguro de exposição cai pela metade.

Claro — segue a tabela em **HTML com roxo e laranja da marca**:

Nível de ruído aproximado Exemplos Tempo máximo considerado seguro por dia
85 dB Tráfego pesado, liquidificador, cortador de grama 8 horas
90 dB Serra circular, furadeira, motocicleta 4 horas
95 dB Máquinas industriais, britadeira 2 horas
100 dB Martelete, show de música ao vivo, motor a jato de avião à distância 1 hora
105 dB Perfuratriz, alto-falante próximo 30 minutos
110 dB ou mais Motor de avião próximo, explosões controladas Menos de 15 minutos

 

Trabalhadores que ficam expostos a esses níveis todos os dias, durante anos, acumulam um dano que não aparece no espelho e não dói. Mas está acontecendo.

Os setores com maior risco incluem construção civil, mineração, metalurgia, madeireiras, indústria têxtil, música (músicos e técnicos de som), aviação, bares e casas noturnas, cozinhas industriais e transporte pesado. Mas qualquer ambiente onde seja necessário elevar a voz para ser ouvido a um metro de distância já representa risco auditivo real.

O que é a audiometria ocupacional e por que ela existe

A audiometria ocupacional é um exame de audição feito com foco específico na saúde auditiva do trabalhador. Ela avalia a capacidade de detectar sons em diferentes frequências e permite comparar os resultados ao longo do tempo, exame por exame, identificando se está havendo piora progressiva.

No Brasil, a Norma Regulamentadora 7 (NR-7) obriga as empresas a fazer o Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO), que inclui a audiometria para trabalhadores expostos a ruído acima dos limites estabelecidos. O exame deve ser feito no momento da admissão, periodicamente durante o vínculo e na demissão.

A lógica é simples: ao comparar o audiograma de admissão com os exames subsequentes, é possível detectar se o trabalhador está exposto a ruído acima dos limites estabelecidos. O exame deve ser feito no momento da admissão, periodicamente durante o vínculo e na demissão. Com isso, detectamos se o trabalhador está perdendo audição por conta das condições de trabalho. Se detectado cedo, medidas de proteção podem ser tomadas antes que o dano se torne irreversível.

O problema é que muitas empresas tratam esse exame como protocolo burocrático, sem um acompanhamento real dos resultados. E muitos trabalhadores que são autônomos, freelancers ou informais nunca chegam a fazer o exame.

Por que fazer mesmo sem sentir nada

Essa é a parte que mais pessoas precisam entender.

A perda auditiva induzida por ruído não doi. Não causa tontura. Não gera nenhum sinal óbvio nos primeiros anos. A pessoa continua ouvindo, continua funcionando normalmente no cotidiano, e não tem nenhuma razão aparente para procurar um médico ou fonoaudiólogo.

Só quando a perda atinge frequências mais amplas e que os sintomas chegam: dificuldade para entender conversas em ambientes barulhentos, necessidade de pedir para as pessoas repetirem, volume da TV mais alto do que antes, dificuldade para ouvir ao telefone. Às vezes o zumbido no ouvido aparece como primeiro sinal de alerta.

Mas esses sintomas chegam quando parte significativa da audição já não pode mais ser recuperada.

A audiometria feita preventivamente captura a perda antes dos sintomas. E nesse estágio, ainda é possível agir: revisar os equipamentos de proteção individual, reduzir o tempo de exposição, afastar o trabalhador de fontes de ruído mais intensas.

Importante: a PAIR é irreversível. Não existe tratamento que recupere a audição perdida por exposição a ruído. O que existe é prevenção, monitoramento precoce e adaptação. Por isso o exame preventivo faz tanta diferença.

A diferença entre ouvir e entender

Muita gente que tem perda auditiva induzida por ruído diz que “escuta tudo bem”. E na maioria dos casos, a pessoa está sendo honesta.

O que acontece é que a PAIR, nos estágios iniciais, afeta frequências específicas sem comprometer a percepção geral dos sons. A pessoa ouve a voz, ouve a televisão, ouve a buzina do carro. Mas começa a ter dificuldade para distinguir certas palavras, para entender alguém que fala de costas, para acompanhar uma conversa quando há ruído ao fundo.

Essa diferença entre ouvir e entender é um dos primeiros sinais clínicos da PAIR. E ela só aparece no audiograma, não na percepção cotidiana da pessoa.

Com o tempo, sem que o dano seja identificado e as condições de exposição sejam corrigidas, essa perda seletiva avança para frequências mais amplas e passa a afetar a comunicação de forma clara. Aqui o problema já está instalado.

O que acontece no exame

A audiometria é um exame simples, indolor e que dura entre 30 e 45 minutos. A pessoa usa fones de ouvido e responde a sons em diferentes frequências e intensidades, permitindo que o fonoaudiólogo mapeie exatamente em quais frequências a audição está preservada e em quais há redução da sensibilidade.

No contexto ocupacional, o exame segue protocolos específicos: é feito após um período mínimo de 14 horas sem exposição a ruído intenso, para evitar que um deslocamento temporário de limiar mascare o resultado real. Isso significa que, se o trabalhador vai fazer o exame na segunda-feira de manhã, não deve ter trabalhado em ambiente ruidoso desde sábado à tarde.

O resultado é registrado no audiograma, um gráfico que mostra a sensibilidade auditiva em cada frequência testada. Para trabalhadores, esse audiograma deve ser guardado e comparado com os exames seguintes ao longo dos anos. E na comparação que os sinais de piora progressiva aparecem.

Para uma avaliação mais completa, especialmente quando há suspeita de alteração, pode ser indicada também a imitanciometria, que avalia o funcionamento do ouvido médio e descarta causas que não são o ruído.

O que fazer quando a audiometria mostra alteração

Encontrar uma alteração no exame não é o fim do mundo. É exatamente o objetivo do monitoramento precoce.

Quando o audiograma mostra uma perda nas frequências características da PAIR (especialmente em 4.000 Hz, o chamado “entalhe de 4 kHz”), o caminho envolve algumas frentes:

  • Revisão da proteção auditiva: os protetores estão sendo usados corretamente? São adequados para o nível de ruído do ambiente? Estão em bom estado?
  • Avaliação do ambiente: o nível de ruído do posto de trabalho está dentro dos limites estabelecidos pela NR-15? Existem medidas de controle de ruído na fonte que ainda não foram implementadas?
  • Redução do tempo de exposição: em alguns casos, a rotação de funções ou a redução da jornada em ambiente ruidoso é necessário.
  • Afastamento temporário ou definitivo: quando a perda já é significativa, o afastamento das fontes de ruído pode ser necessário para evitar o agravamento.
  • Acompanhamento fonoaudiológico: para monitorar a evolução e, se a perda já afeta a comunicação, indicar reabilitação auditiva.

A notificação ao eSocial e o enquadramento como doença ocupacional também são parte desse processo e tem implicações legais e trabalhistas que precisam ser tratadas com o suporte adequado.

O zumbido como sinal de alerta precoce

Muitos trabalhadores expostos a ruído relatam zumbido no ouvido, especialmente após o expediente. Esse sintoma é frequentemente ignorado ou tratado como algo normal do trabalho.

O zumbido persistente ou recorrente após exposição a ruído é um sinal de que as células ciliadas estão sendo sobrecarregadas. Nos estágios iniciais, o zumbido some após algumas horas de repouso auditivo. Com o tempo e a exposição continuada, pode se tornar permanente e constante, um dos sintomas mais difíceis de tratar.

Quem sente zumbido regularmente após o trabalho deve tratar isso como um sinal de alerta e buscar avaliação auditiva. O zumbido que aparece junto com a exposição a ruído pode preceder a perda auditiva mensurável no audiograma, funcionando como um aviso precoce que não deve ser ignorado.

Trabalhador autônomo e informal: quem cuida da sua audição?

A NR-7 se aplica a empresas com vínculo empregatício formal. Mas e o pedreiro autônomo? O músico freelancer? O mecânico que tem a própria oficina? O cabeleireiro exposto ao barulho de secadores por horas a fio?

Essas pessoas não tem empresa obrigadas a custear a audiometria. E justamente por isso estão em maior risco: ninguém está acompanhando a saúde auditiva delas.

Para quem trabalha por conta própria em ambientes com ruído, a audiometria periódica por iniciativa própria é o único caminho. Não como exigência legal, mas como investimento na própria saúde. A audição perdida por negligência não volta.

Você se encaixa em algum desses perfis?

  • Trabalha em ambiente onde preciso elevar a voz para ser ouvido a um metro de distância
  • Fica perto de máquinas, motores ou equipamentos barulhentos por mais de 2 horas por dia
  • Sente zumbido no ouvido depois do expediente, mesmo que passe com o tempo
  • Nunca fez audiometria ou fez há mais de 2 anos
  • Tem dificuldade para entender conversas em ambientes com ruído de fundo
  • Pede com frequência para as pessoas repetirem o que disseram
  • Noto que coloco o volume da TV ou do celular mais alto do que antes
  • Uso protetor auricular no trabalho mas nao sei se está adequado para o meu ambiente

Se marcou dois ou mais itens, a audiometria não é preciosismo, é necessidade.

Com que frequência fazer o exame

Para trabalhadores com exposição a ruído, a NR-7 estabelece periodicidade mínima de acordo com o resultado do exame anterior e o nível de exposição. De forma geral:

Situação Periodicidade recomendada
Admissão (primeiro contato com ruído) Antes de iniciar a exposição
Audição normal, exposição moderada A cada 2 anos
Audição normal, exposição intensa Anual
Alteração detectada (Mudança Significativa) A cada 6 meses até estabilização
Demissão ou mudança de função Na saída, para registro do estado auditivo final

Para quem é autônomo ou não tem empresa que custeie o exame, a recomendação geral é fazer a audiometria anualmente se a exposição ao ruído for frequente.

Protetor auricular: usa e está protegido?

Aqui existe um equívoco comum: o uso do protetor auricular não elimina o risco, só o reduz. E só reduz se o protetor for adequado, bem conservado e usado corretamente durante toda a exposição.

Protetores de espuma que não vedam bem o canal auditivo, protetores com atenuação insuficiente para o nível de ruído do ambiente, protetores usados apenas parte do tempo, protetor auricular retirado em momentos de calor. Qualquer um desses cenários compromete a proteção real.

Além disso, o protetor protege contra a perda auditiva mas não elimina completamente a sobrecarga sobre as células em ambientes com ruído muito intenso. O monitoramento audiométrico continua sendo necessário mesmo para quem usa protetor regularmente.


Perguntas frequentes

Audiometria ocupacional é obrigatória?

Para empresas com empregados expostos a ruído acima dos limites da NR-15, sim. A NR-7 exige que o PCMSO inclua audiometria admissional, periódico e demissional para esses trabalhadores. Trabalhadores autônomos ou informais não são cobertos por essa obrigação legal, mas tem o mesmo risco auditivo e a mesma necessidade do exame.

Posso fazer a audiometria por conta própria, sem empresa?

Sim. Qualquer pessoa pode agendar uma audiometria em uma clínica especializada. O exame não exige encaminhamento médico. Para trabalhadores que querem monitorar a própria saúde auditiva de forma independente, é perfeitamente possível fazer o exame por iniciativa própria e guardar os resultados para comparação futura.

A perda auditiva por ruído tem cura?

Não. As células do ouvido interno não se regeneram. A perda auditiva causada por ruído é irreversível. O que é possível é interromper a progressão, protegendo a audição restante, e, nos casos em que a perda já afeta a comunicação, utilizar recursos de reabilitação auditiva. Essa é a razão pela qual prevenção e detecção precoce fazem tanto sentido.

O protetor auricular não é suficiente para proteger?

O protetor auricular é importante e reduz o risco, mas não elimina completamente. Depende do tipo de protetor ser adequado para o nível de ruído do ambiente, do uso correto e contínuo durante toda a exposição e da manutenção adequada do equipamento. O monitoramento audiométrico é necessário mesmo para quem usa protetor regularmente.

Como saber se meu ambiente de trabalho é barulhento demais?

Um critério prático: se você precisa elevar significativamente a voz para ser ouvido por alguém a um metro de distância, o ambiente provavelmente está acima de 85 dB. A medição precisa ser feita com dosímetro e decibelímetro, instrumentos usados em perícias e avaliações de higiene ocupacional. Empresas sujeitas a NR-7 são obrigadas a fazer essa medição.

Zumbido no ouvido depois do trabalho é normal?

É comum entre trabalhadores expostos a ruído, mas não é normal no sentido de ser inofensivo. O zumbido pós-exposição indica sobrecarga das células ciliadas. Nos estágios iniciais, some com o repouso auditivo. Com o tempo e a exposição continuada, pode se tornar permanente. Quem sente zumbido regularmente após o expediente deve buscar avaliação auditiva.

Tenho audiometria em dia pela empresa. Ainda preciso me preocupar?

Depende de como a empresa trata os resultados. Se os audiogramas são arquivados sem análise comparativa, sem retorno ao trabalhador e sem medidas de proteção quando há alteração, o exame está sendo feito mas não está cumprindo sua função. Vale conversar com o médico do trabalho sobre o que os resultados mostram e se há alguma tendência de piora.

Faça sua audiometria no Núcleo Auditivo

O Núcleo Auditivo realiza audiometria ocupacional e avaliação auditiva completa, com equipe especializada formada pela USP e pela Santa Casa de Sao Paulo.

Se você trabalha em ambiente ruidoso e não faz audiometria regularmente, esse é o momento certo para começar. 

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